Cordéis no Pinheirinho dos Palmares

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9 de outubro de 2017

Mais que nunca, é preciso sonhar

(“Os Gigantes da Montanha” e o Grupo Galpão)

Fui ao teatro (re)ver o Grupo Galpão e saio com a impressão de que a beleza na Arte, a partir de um certo ponto, ultrapassa o próprio limite das palavras. Paradoxo: ainda assim, sou impelido a escrever. E por razões objetivas: no Brasil de 2017, é preciso assistir “Os Gigantes da Montanha”, montagem do grupo para o texto de Luigi Pirandello.
Sim, vivemos num tempo em que a beleza chega a adquirir conotação subversiva - principalmente quando aliada à excelência da representação. Para dar um exemplo: a caracterização antológica do ator Paulo André como personagem feminina na peça é capaz de ofender certas “pessoas na sala de jantar” (como diriam os Mutantes). Pior para os que se ofendem. Nestes tempos difíceis, em que setores (ultra)conservadores chegam a pedir censura a exposições e apresentações artísticas (na verdade “exigem”, o que apenas explicita seu caráter autoritário), é reconfortante ouvir o Galpão emendar o final de uma das músicas com a exclamação: “Censura não!”
Pirandello morreu às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Certamente compreendia os graves tempos que estavam por vir. Poucos anos depois, Walter Benjamin passou a alertar sobre a mudança de percepção que se operava nas pessoas a partir da reprodutibilidade técnica nas obras de arte. Pois bem: o teatro nunca se curvou à mera reprodutibilidade. O acaso sempre está presente, e por isso mesmo a aura nunca se perde. Curioso: um seriado famoso na TV dos anos 1990 avisava que “a verdade está lá fora”. O Galpão viaja pelo Brasil confirmando que “sim, a verdade está AQUI fora” – e é tanto mais impactante quanto mais se revela através do registro de fábula.
A cada época, seus desafios. Temos os nossos, e não falo (só) de manter as contas em dia: trata-se de lutar inclusive pelos direitos mais fundamentais. Nos últimos tempos, a imprensa (!!) tem dado espaço a políticos que defendem abertamente a imposição de limites à liberdade de expressão, propondo inclusive sanções e multas aos libertários. Pois bem: no passarán, caros censores! Temos a fábula. E fábulas como a de Pirandello prestam-se a múltiplas interpretações e questionamentos; ler, ouvir, cantar e representar são atitudes que enriquecem a própria experiência humana.
Voltando à peça: logo no início, quando a brancaleônica trupe mambembe perambula em busca de um lugar para apresentar seu espetáculo, ficamos sabendo que fantasmas não assustam artistas. Na verdade,

a Arte faz ponte
entre o pleno Aqui-Agora
e o reino do Além.

A última cena, aquela que Pirandello contou mas não escreveu, trata do embate dos artistas com os Gigantes. Que não são propriamente gigantes, o texto explica: trata-se de pessoas que chegaram “no alto da Montanha” com muito esforço, mas que, na caminhada, embruteceram, tornaram-se de certo modo insensíveis – esquecerem-se, talvez, de sua própria humanidade. Culpa do Empreendedorismo ou da Meritocracia? A peça estimula fortemente a reflexão, neste momento em que artistas, buscando seu lugar na praça, são pressionados a se converterem em “empresas de um homem só” (as MEIs).
A peça, escrita na década de 1930 e montada pelo Galpão em 2013, torna-se ainda mais atual agora. Os artistas, armados de figurinos, vozes e sonhos, caminham para se apresentar diante dos Gigantes. Retroceder? Nunca. Temer? Jamais.
Ao fim da peça (na verdade, o fim ainda está por escrever), resta-nos agradecer ao Galpão pelo exemplo dado nestes primeiros 35 anos de sua trajetória: sem concessões, dando sempre coerência aos nossos sonhos. Até mesmo depois do espetáculo: nesta cidade que um dia abrigou o Pinheirinho (invadido e desocupado por Gigantes da Montanha fardados), passavam das dez da noite quando encontramos os atores saindo do teatro. Cansados, após mais uma jornada de belezas, eles nos mostram que, sim, sempre há tempo para um abraço. E que ninguém ouse censurar o afeto, que é e sempre será revolucionário.

É preciso que sonhemos,
principalmente acordados;
que encaremos os Gigantes
(na rua e até no Senado)
e saibamos exprimir
com Arte o nosso recado.

P.R.Barja

28 de setembro de 2017

AMOR, SEMPRE


mesmo para quem me odeia
eu tento mandar amor.
Isso não é ser do contra:
na boa, é ser "a favor"

a favor do entendimento
a única solução
para que esse planetinha
não sofra destruição

Coreias e Norteaméricas
acham que é tudo na briga
porém a revolução
não é feita com intriga

é na base dos encontros
não tô falando de sexo
digo só que nesse mundo
há côncavo e há convexo

quem vai salvar esse mundo
é a porra do afeto, mano
café com prosa da boa
pra desfazer todo engano

é reconhecer beleza
venha de onde vier
não precisa botar cerca
nem cheirar um pó qualquer

tem gente boa no mundo
isso sempre me impulsiona
e a conclusão é só uma:
AFETO REVOLUCIONA
P.R.Barja

26 de setembro de 2017

"A CIDADE FALA" - apresentação de uma proposta de estudo

Apresentamos aqui um resumo do trabalho apresentado no II Seminário de Estética Social da USP, acompanhado dos slides correspondentes à apresentação realizada no dia 22/set/2017, marcando o "lançamento" da pesquisa "A Cidade Fala":














3 de setembro de 2017

Encontro sobre Cultura - PIRAQUARAS (Pindamonhangaba, setembro/2017)

Foi grande - e relevante - a participação de jovens no encontro
   De 1 a 3 de setembro, o Clube de Campo do Sindicato dos Metalúrgicos de Pindamonhangaba sediou o encontro PIRAQUARAS, sobre interfaces da Cultura (Cultura & Educação, Cultura & Feminismo, Cultura & Meio Ambiente, Cultura & Território foram alguns dos eixos abordados).
   Promovido pelo coletivo Mixgenação, o evento contou com a participação de cerca de 50 coletivos sociais de todo o Vale do Paraíba, além de outras cidades do Estado de São Paulo.  Na tarde do dia 2, fizemos a composição e leitura de décimas de cordel sobre questões abordadas no encontro; clique AQUI para ler.


Andréa Guaraciane foi fundamental na organização do evento.
Mulher de fibra e coragem. Palmas para ela!
Programação parcial do evento (teve muito mais)
Nossa participação ocorreu na roda de debate "Cultura & Educação"




Procissão dos Mortos - Jacareí, 2017

     Na última sexta-feira de agosto - e com saída à meia-noite, ocorre em Jacareí a Procissão dos Mortos. o evento foi retomado há poucos anos e homenageia antigas lendas e causos da região. A concentração dos participantes (fantasmas, bruxas, vampiros, mortos ensanguentados em geral e simpatizantes) ocorre em frente ao Museu de Antropologia do Vale do Paraíba. Há participação de atores e músicos. Os participantes, caracterizados ou não, recebem velas pretas para a procissão, que segue por diversas ruas até o cemitério municipal. 
     Este ano marcou nossa primeira participação, para observação e registro. Uma conclusão: os mortos em Jacareí são muito mais animados que os vivos em outras cidades. Confiram algumas imagens:

A concentração, em frente ao Museu de Antropologia do Vale do Paraíba (MAV)

Particularmente, achei este o grupo mais assustador:
enfermeiras e médicos ensanguentados...

Os mortos também dançam na praça

Chegada do cortejo em frente ao cemitério, por volta de 1h20

A noiva morta, personagem frequente em histórias do Vale do Paraíba

Essa foto inda vai virar fotopoema

Bebel e o amigo Iago

O blogueiro com sua fiel escudeira, Bebel

19 de agosto de 2017

Vitória da Cidadania em São José dos Campos

     Em São José dos Campos, os últimos dias foram de debate sobre questões ligadas à cidadania. Na terça (15/08), a Câmara Municipal foi sede de um embate a respeito da proposta de “Escola Sem Partido”, apresentada por setores contrários ao aprendizado de uma visão crítica da História nas escolas. Enquanto educadores e ativistas contrários à proposta concentraram-se na Câmara para o debate que ocorreria, integrantes e simpatizantes da proposta “Escola Sem Partido” vieram da Praça Afonso Pena até a Câmara. O debate acabou ocorrendo fora do plenário, com enfrentamento entre os manifestantes. Em menor número, os defensores da proposta de “Escola Sem Partido” foram recuando até a porta de entrada, dispersando-se a seguir, enquanto o presidente da Câmara encerrou a sessão alegando falta de segurança.
     Os defensores da “Escola Sem Partido” dizem querer evitar a “propaganda comunista” nas escolas. Entre os professores, em sua maioria, contrários à proposta, entende-se que esta representaria uma censura ao trabalho do educador. Alega-se ainda que a proposta implicaria, ao contrário do que seus defensores afirmam, numa escola COM partido, porém sem espaço para a análise crítica, essencial no ensino e aprendizagem principalmente de História e Geografia.

Audiência pública na UNIVAP
     Já na quarta-feira (16/8), a UNIVAP (Unidade Castejón) sediou audiência pública sobre o Plano Estadual de Educação em Direitos Humanos (SP). O evento foi particularmente importante porque, na semana anterior, a audiência ocorrida sobre o mesmo tema no campus Baixada Santista da UNIFESP havia sido conturbada, com a presença de mais de 90 policiais militares fardados e inicialmente armados, em atitude considerada opressora e que motivou inclusive uma nota de repúdio publicada pela ADUNIFESP.
     Na UNIVAP, mesmo com auditório lotado, a audiência transcorreu pacificamente, conforme atestaram participantes do evento. Segundo Ana Carla Pinto, “foi muito bom ver o auditório mobilizado, as contribuições foram bem pertinentes”. Francisco Roxo, também presente ao evento, elogiou o incentivo à participação popular, mas lamentou a escassez de tempo para discussão. O sociólogo Moacyr Pinto considerou a audiência “maravilhosa, com a presença dos mais variados setores da sociedade”; segundo ele, ficou claro que era um “encontro democrático sobre Direitos Humanos, sem espaço para o fascismo.”
     A professora Paula Carnevale (UNIVAP) destacou a presença e jovens e participantes de movimentos sociais, comentando ainda que a participação da polícia foi construtiva e propositiva. Carnevale, porém, alerta para o fato de que ainda é necessário avanço quanto ao estabelecimento de formas claras para incorporação das sugestões apresentadas pela população ao documento previamente elaborado.
     Tudo somado, fica a conclusão de que o diálogo é sempre o melhor caminho para exercitar a cidadania, e toda construção deve levar em conta o respeito à diversidade de opiniões – para que cada pessoa possa livremente tomar partido em relação aos temas em debate.

Paulo R. Barja

15 de agosto de 2017

Ocupação Escolar e Liberdade de Expressão

Seminário apresentado por aluna do LabCom Univap revela a construção identitária a partir de produções textuais dos alunos que participaram das ocupações


     A aluna Ana Flávia Leite, da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas e Comunicação da UNIVAP que estudou as ocupações escolares em São José dos Campos com bolsa PIBIC, fez sua apresentação final hoje, em auditório do CEPLADE/UNIVAP.

A aluna Ana Flávia Leite, orientada pelo prof. Paulo Barja (UNIVAP)

     Ana realizou a análise das produções textuais de alunos que participaram das ocupações escolares no final de 2015, na Zona Sul da cidade de São José dos Campos, em protesto contra a proposta de reorganização escolar, que havia sido anunciada pelo governo de São Paulo sem prévio debate com alunos, famílias e professores. O trabalho analisou a construção identitária nos alunos a partir do processo de ocupação. As principais referências bibliográficas utilizadas pela pesquisadora no trabalho foram os livros “Escolas de Luta” (de Antonia Campos, Jonas Medeiros e Márcio Ribeiro) e “A Identidade Cultural da pós-modernidade”, de Stuart Hall. Entre as produções textuais coletivas analisadas, ganham destaque no trabalho os textos produzidos pelos alunos no formato da literatura de cordel, a partir das oficinas voluntárias realizadas pelo prof. Paulo Barja nas ocupações.

Antes da apresentação, a aluna entregou à banca exemplares do cordel
produzido pelos alunos durante a ocupação escolar

     Orientada pelo professor Paulo Roxo Barja, a aluna de jornalismo foi a primeira bolsista da área de Comunicação da UNIVAP no PIBIC. Foi muito elogiada pela banca, que teve as participações das professoras Drª Mirabel Cerqueira Rezende (UNIFESP) e Drª Juliana Campos Junqueira (UNESP).

Foi avaliada a construção identitária dos alunos a partir de suas produções nas redes sociais

     Os autores agradecem à banca avaliadora e também à Profª. Maria Aparecida Papali, ao diretor do Instituto de Pesquisa & Desenvolvimento (IPD/UNIVAP), prof. Leandro Raniero e à coordenadora do LabCom/Univap, Profª. Kátia Zanvettor Ferreira.



A apresentação seguiu as normas do PIBIC, com os slides produzidos em inglês

     Aluna e orientador preparam agora artigos a partir do relatório final do projeto, para futuras participações em congressos acadêmicos.

3 de agosto de 2017

Contraponto


   Em tempos tão duros, a primeira aula de "Linguagem Sonora e Musical" nesse semestre continuou depois do horário normal, pois levei alguns minutos até assimilar o impacto do novo aprendizado. Falamos de "som" como energia criativa - e, no fim, os alunos me demonstraram a energia intensa e positiva do aplauso.
   Obrigado pelo ensinamento - e que sigamos aprendendo juntos!

25 de julho de 2017

Saúde Pública - Artigo (Revista Univap)

Saiu na Revista Univap (ISSN 2237-1753), v. 22, n. 41 (clique no título para acessar o texto completo):



Uma observação:
mulheres com melhor nível de escolaridade vêm realizando os exames de rastreamento no tempo correto, o que as protege contra o avanço de uma eventual malignidade. 

Uma conclusão:
o acesso aos exames não vem sendo garantido às mulheres em situação de vulnerabilidade social, seja em relação à idade, à cor/raça (menor proporção de mulheres de cor negra e parda)  ou  ao  grau  de  instrução; assim, mesmo no SUS, ainda verifica-se o efeito da desigualdade social.

Fora da Caixa: Presenças latentes

   Em julho, uma grande alegria: o livro Um Cordel A Carolina foi lançado em São José dos Campos, no Parque Vicentina Aranha, dentro da programação Fora da Caixa.
   A produção gráfica preparada pela equipe do Parque ficou linda, confiram:





A seguir, duas fotos do evento:

Brun Willy, performer, iluminou a noite com seu talento 
Prosa com os autores: aqui, estou entre Michelle, autora de obra sobre Julia Lopes de Almeida,
e Claudia Regina Lemes, parceira e ilustradora de Um Cordel a Carolina

O evento, na internet:

21 de julho de 2017

PERSEGUIDO POR BOAS RAZÕES (B.Brecht, adp. Paulo Barja)

A propósito da recente perseguição política movida por um juiz de primeira instância contra um presidente, lembrei de um poema de Brecht cuja parte final segue abaixo em adaptação minha:

PERSEGUIDO POR BOAS RAZÕES 
(B. Brecht, adp. P. Barja)

(...) Estou entre o povo,
e explico como o enganam,
e predigo o que está para vir,
pois sei de seus planos.
Desmonto a balança da sua justiça
e mostro os pesos falsos.
Os espiões informam
de que estou com os humildes e oprimidos
preparando a (re)volta.
Advertiram-me, tiraram-me
o que ganhei com meu trabalho honesto.
Como não me "corrigi",
perseguiram-me,
e como acharam em minha casa
escritos revelando 
seus planos contra o povo,
condenaram-me à detenção
acusando-me de ter ideias subversivas, ou seja,
de pensar como os de baixo.
Onde quer que eu vá, estou marcado a fogo para os ricos,
mas os que nada possuem
lêem a ordem de prisão
e me dão refúgio.
Dizem:
- A você, eles perseguem por boas razões.

PAPEL DE JORNAL OU PAPELÃO? A Operação Midiática da Desocupação do Pinheirinho pelo Jornal “O Vale” (link para trabalho completo)

   A história recente de São José dos Campos é marcada pela desocupação do Pinheirinho, bairro irregular formado na Zona Sul da cidade que contava com aproximadamente 8000 moradores em 2012. A desocupação, no início de 2012, empregou mais de 2000 policiais militares e gerou polêmica na imprensa e na opinião pública. O presente trabalho analisa o tratamento dispensado pelo jornal local (“O Vale”) ao Pinheirinho, nos meses que antecederam a desocupação. Foram selecionadas matérias respeitando os critérios: i) área publicada igual ou superior a um terço da área impressa da página; e ii) presença de fotos na matéria. Os critérios levaram à seleção de três artigos, datados de agosto de 2011, outubro de 2011 e janeiro de 2012. A análise das matérias evidencia uma operação midiática de desocupação, iniciada antes da retirada dos moradores.
   Para o artigo completo publicado nos anais do InterCom Sudeste (jun/2017), clique AQUI.

O DISCURSO FEMININO NO RAP: Garotas que não são de Ipanema (link para artigo completo)


   A música popular é um canal de manifestação popular, propício à expressão de pontos de vista a respeito de diferentes aspectos da sociedade. Neste contexto, na periferia dos centros urbanos brasileiros, predominam dois estilos musicais que carregam em si dois discursos fundamentalmente opostos no que tange às questões de gênero: o funk e o rap. Este trabalho propõe uma reflexão sobre o discurso de gênero nas letras do rap feminino de São José dos Campos. Após pesquisa de letras de música interpretadas por mulheres rappers, selecionou-se aquelas consideradas mais significativas para uma avaliação que se propõe comparativa: cada rap é analisado junto a uma canção tradicional brasileira. Observa-se que o rap feminino se contrapõe ao machismo ainda presente na sociedade e, por extensão, na música popular brasileira. As rappers desempenham assim um papel importante, e a presença deste rap em eventos da periferia permite a expressão feminista pela via da comunicação popular e alternativa, ganhando espaço nas ruas e também na internet.
   Contextualizando o problema - Em seu clássico texto A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, Stuart Hall (2014) cita uma série de grandes avanços sociais ocorridos no que chama de modernidade tardia (período que situa na segunda metade do século passado); trata-se, a bem dizer, de rupturas de discursos predominantes até então. Nesse texto, Hall destaca o feminismo como movimento social impactante, capaz de politizar a própria formação identitária, a partir do reconhecimento das questões de gênero como políticas. Desde que despontou o feminismo, décadas já se passaram; pode-se afirmar, no entanto, que ainda hoje o movimento é não apenas atuante como necessário, haja vista a disparidade de tratamento entre homens e mulheres em diferentes setores da sociedade, bem como a frequência com que se relatam atos de violência cometidos especificamente contra mulheres.

obs.: Trabalho apresentado no GT Comunicação Popular e Alternativa do PENSACOM BRASIL 2016.  Para ler o artigo completo, clique AQUI.

A OCUPAÇÃO DAS ESCOLAS ESTADUAIS PAULISTAS: o discurso estudantil contra a reorganização avaliado a partir da produção de um cordel coletivo (link para artigo completo)

Segue link para o trabalho originalmente apresentado no COLE 2016 e publicado sob a forma de artigo na revista Linha Mestra (dez/2016) :


13 de julho de 2017

A Revista VEJA e seus seguidos tiros no pé (a pressa é "iminiga"...)

     Na divulgação da sentença proferida ontem por um juiz de Curitiba contra Lula, um detalhe é revelador de possíveis "ligações perigosas". Até onde sabemos, a primeira postagem de veículo midiático sobre a sentença foi divulgada pela Veja, ainda antes das 14h (a partir das 14h, a notícia multiplicou-se em diversos sítios de notícias). 
     A imagem abaixo (compartilhada ao longo do dia em redes sociais) mostra, porém, que a pressa pode ser inimiga da perfeição - e revela ainda mais:



     Quem trabalha (ou tem contato) com o meio jornalístico sabe que é comum a preparação de versões prévias de notícias, que ficam (ou deveriam ficar) aguardando confirmação e detalhamento de informações para publicação em seguida. No entanto, a "ansiedade vejística" foi tamanha que a matéria saiu com um "XX" no lugar da informação!
     Fica no ar a pergunta: será que houve informação privilegiada (ainda que incompleta)? Ou este foi só mais um exemplo do desleixo e/ou mau jornalismo dessa revista-boa-pra-fazer-papel-machê?
P.R.Barja


O Tema da Vez (e mais uma sextilha da série Cordel-Notícia, 12/07/17)

     No futebol também é assim: em alguns jogos, a estratégia adotada por uma das duas equipes (ou mesmo o estilo desenvolvido por ambas) praticamente conduz o jogo a um determinado resultado final. Ainda que o placar varie, valem máximas como "quem joga para empatar acaba perdendo" e outras, vivas na sabedoria popular. 
     No que se refere ao julgamento do ex-presidente Lula pelo juiz de primeira instância em Curitiba, as duas partes sabiam desde o início que a condenação (por um triplex no Guarujá que nunca foi de Lula) já estava escrita, determinada, ainda que nunca se tenha obtido prova alguma de crime algum. É grave, gravíssimo - mas não chega a surpreender. No entanto, confesso que me equivoquei quanto a cronologia do jogo: imaginei que a "condenação sem provas" sairia pouco antes da votação das alterações da CLT, para tirar a atenção deste que seria o real e imediato problema para a maior parte da população brasileira. Na verdade, ocorreu o contrário: como o (des)governo demonstrou ter maioria para aprovar as reformas, a preocupação (imagino) passou a ser como evitar uma eventual reação intempestiva nas ruas contra a perda de direitos do trabalhador.
     Uma coisa, porém, é certa: independentemente da posição ideológica (contra ou a favor das reformas, contra ou a favor de Lula), está claro para todos que a aprovação destas reformas e o nome de Lula (como líder nas pesquisas para a sucessão presidencial) são dois lados da mesma moeda. Por uma razão bastante simples: Lula é visto por uns e outros como o grande (e talvez único) candidato capaz de reverter as reformas, voltando a salvaguardar o trabalhador. Isto, aliás, não seria bondade alguma: o respeito à própria biografia de Lula assim o exige. 
     Segue o jogo...
*          *          *

Também serei preso, sim:
o triplex nunca foi meu;
o helicóptero do pó
também nunca me valeu
e maleta de dinheiro
nunca recebi... Fodeu!

*          *          *

     Uma das coisas mais importantes que aprendi na carreira acadêmica foi o valor da concisão. Por escrito ou oralmente, quem "enrola" muito na defesa de sua tese demonstra insegurança e/ou tenta disfarçar falhas utilizando verborragia.
     A sentença de Moro contra Lula tem 218 páginas.
     É autoexplicativo.
P.R.Barja

7 de julho de 2017

Um cordel feito ao vivo

No final de junho/2017, fui chamado a colaborar com a programação "Fora da Caixa", do Parque Vicentina Aranha, em São José dos Campos. Minha tarefa era desafiadora: eu deveria acompanhar o bate papo com os autores Paulo Freire e Tenório Cavalcanti e fazer inserções poéticas na forma de cordel, compondo em tempo real um folheto sobre o encontro. Nasceu aí o Cordel Joseense 76 (clique no link abaixo para conhecer o texto na íntegra).



5 de julho de 2017

Manifesto semafórico (limeriques joseenses)

   Desde o início de 2017, tem ocorrido um embate (infelizmente embate mesmo, mais que debate) entre a administração municipal de São José dos Campos e os artistas da cidade. Como ponto-chave neste tensionamento, tivemos as discussões sobre o PL215/17, apresentado pela bancada governista na Câmara Municipal. O projeto ficou conhecido como "proibição de malabares em semáforos joseenses", mas (infelizmente) é ainda mais amplamente grave a situação, pois a (agora aprovada) lei instaura condicionamentos à apresentação de qualquer trabalho cultural e/ou artístico em espaços públicos da cidade! Todos, incluindo os malabares, devem agora cadastrar-se previamente e aguardar autorização da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) para apresentações, que obrigatoriamente devem conter repertório e roteiro definidos (isto é uma quase-impossibilidade, tratando-se de arte de rua em que a interação em tempo real impõe eventualmente alterações significativas na apresentação).
   Aprovado dia 8/junho/2017, o projeto entra em vigor 30 dias após aprovação. Neste cenário e contexto, postamos a seguir a série de limeriques criada contra este projeto/lei, que segundo nosso entendimento reinstala a censura em terras joseenses.
   São poemas curtos e bem humorados. Recomenda-se a leitura em semáforos joseenses!

ANARCOVERSOS
PRA D/R-ECLAMAR
EM VIAS PÚBLICAS
#SãoJoséDosAbsurdos
#SomosTodosArtistasDeRua

1
Uma vez houve 1 certo estrupício:
sem pensar - era muito difícil! 
proibiu a Poesia
mas ficou com azia
pois poeta tem muito artifício!

2
O prefeito botou pra ferver
e mostrou que era ruim de doer:
- Malabares não dá!
Eu proíbo isso já!
Só porque não sabia fazer...

3
O prefeito ralhou, de pirraça:
- Eu proíbo palhaço e palhaça!
Mas... proíbe por que?
Eu explico a você:
esse alcaide foi sempre sem graça...

4
Cantador bom e bem preparado
canta em praça e jamais é vaiado:
- Faço o povo feliz!
Se o prefeito não quis,
tá provando que é desafinado...

5
O prefeito mandão não se cansa
e na rua proíbe até dança...
- Mas a dança é no pé; 
se o senhor tem chulé, 
ponha talco e não seja criança!

6
Para artistas o alcaide diz não
e ameaça com proibição 
mas parece esquecer
(ou precisa aprender)
que nós temos Constituição!

7
Se o eleito relincha de fato, 
a Cultura é que vai pagar pato?!
Sem artista ou teatro,
só andando de quatro:
ferradura em lugar do sapato!

8
Se o alcaide governa a galope,
quando empina não há mais quem tope.
Chega de proibir:
Arte vai resistir!
Sem Cultura, acabou seu Ibope...

9
A cidade é lugar de debate;
nunca pode ser campo de abate!
Ninguém vai se calar,
pois, se a Arte acabar,
logo a elite não fala, só late...

10
Não se pode impedir cidadão
de expressar a sua opinião:
malabares, cantor,
dançarino ou ator
- rua é nossa também, por que não?

11
O teatro que foi restaurado
já foi logo em seguida fechado.
Vai fechar também rua?
A verdade está nua:
não é culto esse alcaide, coitado...

P.R.Barja

4 de julho de 2017

Pinheirinho dos Palmares, terra de esperança

PRÉ-HISTÓRIA

   Para quem não conhece a história, vale contextualizar: em 2012, o governador de SP empregou 2.200 policiais na operação de invasão àquela que era, até então, a maior ocupação popular da América Latina. Cerca de 1600 famílias (perto de oito mil pessoas) foram retiradas à força do terreno ocupado na divisa entre São José dos Campos e Jacareí.
   A operação foi feita, por incrível que pareça, para beneficiar Naji Nahas, que tem em seu currículo de megaespeculador a façanha de haver exterminado a Bolsa de Valores do RJ, após a emissão de dezenas de cheques milionários - sem fundos. Nahas foi condenado, mas aqui em São José dos Campos escondeu-se atrás do nome Solectron para manter (e não utilizar) por mais de 20 anos uma extensa área em São José. Observação importante: os caminhos até que esse terreno virasse propriedade de Nahas são, no mínimo, suspeitos, uma vez que a família de alemães proprietária das terras foi assassinada no final da década de 1960, quando a propriedade passou para o Estado de SP...
   No início de 2004, a área foi ocupada inicialmente por 200 famílias. O Pinheirinho cresceu, com a construção de casas de alvenaria, estabelecimentos comerciais, um parquinho recreativo, igreja: tornou-se, enfim, mais um bairro joseense à espera de regularização (como havia acontecido com o Campo dos Alemães anos antes; em 2012, eram mais de 90 os bairros joseenses aguardando regularização).
   Nahas, mesmo afogado em dívidas inclusive com a prefeitura de São José dos Campos (não pagava os impostos sobre o terreno, devia décadas de IPTU), seguia lutando pela propriedade.
   Em 22 de janeiro de 2012, enquanto o prefeito Cury (PSDB) se escondia na praia, a PM prestou serviço a Nahas, retirando os moradores do bairro. Houve tiros e muito gás lacrimogêneo. Dezenas de feridos. Ironicamente, a população da parte rica da cidade manifestou preocupação quanto aos... cachorros perdidos na operação. É verdade: o prefeito chegou a contratar estabelecimentos particulares para cuidar dos cães.  Quanto às famílias desalojadas, contribuiu com a quantia de 100 reais mensais para as famílias que se cadastraram, valor este complementado pelo governo estadual. 
   A promessa: em um ano e meio, surgiria em outro local um outro bairro para acomodar os antigos moradores do Pinheirinho. Mas a promessa não foi cumprida, ou melhor, só foi cumprida sob a prefeitura de Carlinhos Almeida (PT), já em 2016. 

PINHEIRINHO DOS PALMARES

   O jornal local, que havia trabalhado midiaticamente contra os moradores do Pinheirinho desde setembro de 2011 (como prova artigo de P.R.Barja e C.R.Lemes, premiado em congresso), passou a tratar o novo bairro - Pinheirinho dos Palmares - de modo tendencioso e negativo, comparando-o ao que classificavam como território do crime. 
   Com o tempo, aprendemos a não acreditar nos jornais. Ou melhor, a exercer uma leitura crítica e buscar, sempre que possível, a verdade que "está lá fora". Nesse caso, impunha-se a visita ao novo bairro. E a oportunidade surgiu da maneira mais bonita possível: fomos convidados a participar de um evento comunitário no bairro (meu papel, em particular, seria o de apresentar cordéis para as crianças).
   No primeiro domingo de julho de 2017, a comunidade do Pinheirinho dos Palmares lançou o projeto Sementes Pela Paz, que visa levar arte, cultura, esporte e cidadania às crianças do bairro. O evento reveste-se da maior importância e é um símbolo do poder de organização da coletividade - independentemente de qualquer ligação com instituições políticas. Nossa participação se dá por solidariedade, e a divulgação destas imagens visa levar a verdade aos cidadãos joseenses e brasileiros: ao contrário do que o jornal local quer fazer crer, o Pinheirinho dos Palmares é SIM um exemplo de cidadania e de gente sem medo de trabalhar pelo bem coletivo.
   Como diz a galera do rap: máximo respeito por essa comunidade! Seguem fotos.

Vista parcial do bairro novo, na chegada
A EMEF Pinheirinho dos Palmares. Nas comunidades da periferia, a escola reveste-se de importância adicional, pois é um "centro natural" para atividades como as oficinas culturais propostas pelo projeto SEMENTES PELA PAZ
A parcela infantil da comunidade, público preferencial dos Cordéis Joseenses
Começando a apresentação com adivinhas em cordel
"Quero ver você acertar:
de que bicho eu estou falando?"

Atenção, concentração total da galera

Início da caminhada pela paz, em direção à escola.
Sem medo de chuva!
"Caminhando e cantando..."

Ações de cidadania são essenciais para todos nós. Todos!

Rappers, ativistas, escritores
Rappers, ativistas, escritores (2) - e até a próxima!